Entrevista com George Cleber

 

Folha da Terra /A CULTURA TÁ NO PONTO! entrevista George Cleber, mais conhecido como ‘Binho’, 30 anos, Formado em Ciências Sociais pela FEUC – Fundação Educacional Unificada Campograndense (RJ). Além de Presidente do Centro Cultural a História Que Eu Conto é Orientador Social há 1 ano no PróJovem – Programa desenvolvido pela Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro destinado a capcitacão profissiona e formação de jovens. É consultor em empreendedorismo e hoje ele se dedica integralmente ao Centro Cultural a História Que Eu Conto. Além da instituição, ele fala sobre as suas frustrações na adolescência, o seu amor pelos livros e a importância sobre sustentabilidade e continuidade do seu empreedimento cultural.

FOLHA DA TERRA – CRESCER E VIVER – COMO SURGIU O CENTRO CULTURAL A HISTÓRIA QUE EU CONTO?

BINHO – A fundação do Centro Cultural A História Que Eu Conto, uma iniciativa que nasceu depois de dois anos de gestação, sendo meticulosamente planejada, através de reuniões ao ar livre, na calçada ou na casa de um ou de outro louco. Cada pessoa escolhida para pensar que História seria esta, foi selecionada mediante ao nível de sua “loucura” e sua trajetória de vida em vez de dotes curriculares. De três passaram-se para cinco, dez e em tão pouco tempo multiplicaram-se rompendo os muros invisíveis da comunidade do Complexo de Vila Aliança e Senador Camará, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

No início o maior desafio era encontrar um local que coubesse tudo aquilo que fora planejado, um espaço físico para abrigar ações concretas. Foi quando em 2007 após uma operação policial a Escola Municipal Austregésilo de Athayde fechou suas portas, transferindo-se para outro prédio, deixando para trás uma estrutura modesta, feita de três módulos de madeira e um terreno amplo que não tardou a despertar o interesse dos protagonistas desta história. Do trauma vivido naquele dia em que imprensa do mundo inteiro divulgava a cena cinematográfica do Helicóptero da polícia executando jovens, onde seus corpos rolavam morro a baixo, deixando o saldo de 14 mortes, à consolidação, ao ocupar e transformar aquele lugar num espaço de resistência e mudança de paradigmas. Eis a Fênix, símbolo e logomarca intencional e sugestiva em alusão aos propósitos do Centro Cultural.

Foram realizadas articulações junto às secretarias municipais de educação e cultura em junho de 2008, porém, a burocracia somada ao risco de invasão do prédio escolar ou pior, a possibilidade de torná-lo um logradouro político e a ansiedade e vontade de colocar a mão na massa após dois anos impeliram os fundadores do Centro Cultural A História Que Eu Conto a ocuparem o prédio no dia 23 de junho de 2008, às 07 horas de um manhã chuvosa e fria.

A ocupação se deu de forma ordenada, seguindo o que rege o Estatuto da Cidade, dando funcionalidade a um espaço público que não contribuía com o desenvolvimento da comunidade. Neste período, Binho, Presidente da instituição, estudava Ciências Sociais na FEUC, em Campo Grande, também na Zona Oeste do RJ, e na aula de Sociologia Urbana conheceu o este importante documento.

Os órgãos públicos, sobretudo, as secretarias municipais antes acionadas, foram devidamente informadas daquela ação, desde então se iniciou uma articulação consistente que muito embora cansativa fora agregando colaboradores de diversos segmentos sociais para ajudar na aquisição da Cessão de Uso do espaço, que foi conquistado somente dois anos após, assinado pelo Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro Eduardo Paes, em cerimônia realizada na sede da instituição.

FOLHA DA TERRA – CRESCER E VIVER – POR QUÊ OS FUNDADORES DO CENTRO CULTURAL A HISTÓRIA QUE EU CONTO SE AUTODENOMINAM “LOUCO”?

BINHO – Em qualquer canto do mundo é natural que pessoas se sintam insatisfeitas ou desejem interferir na realidade onde vivem ou atuam, para isso, são motivadas, a partir de um olhar crítico ou da necessidade local, a criarem suas alternativas de sobrevivência. Daí nasce uma nova história, de sujeitos e protagonistas que entram em ação criando, ou pelo menos, tentando criar um novo cenário, para uns utópicos, tendo em vista o drama real e aparentemente imutável.

Ao passo que para outros, renasce uma nova sensação que mescla esperança e otimismo com o desejo e a torcida para que tudo de certo, percebendo numa atitude cidadã o empreendedorismo social e cultural num campo fértil e ilimitado de talentos e qualidades infinitas, onde o primeiro desafio foi ter iniciativa, pois, os talentos já estavam à espera para agregarem os seus sonhos àquela ação primeira daqueles e daquelas que deram o pontapé inicial. Para quem estiver lendo atentamente este texto será natural se identificar, dizendo:

– “Peraí” esta é a minha história! ou – Nossa, começamos assim!

Isto porque esta é uma história que diferentemente das historinhas de contos de fadas “não era uma vez”, ela é real e acontece durante um processo que toma força perpertuando-se, ou seja, sendo uma vez para cada um que contagia o outro, formando uma rede de experiências e experimentações contínuas e crescentes, onde cada indivíduo busca contribuir para que esta História seja Vivida e Contada com orgulho e pertencimento pelas próximas gerações. É neste contexto onde surgem os “Três loucos”, como se não bastassem as analogias existentes, mais uma vez a leitura nos obriga a mergulhar no universo literário remetendo aos Três mosqueteiros, três patetas, três porquinhos, etc. Enfim, Samuca, Jê e Binho, assim são reconhecidos os Três loucos que concretizaram aquilo que aparentemente parecia um sonho impossível, criar um espaço agregador de sonhos e fomentador de realidades ao mesmo tempo.

FOLHA DA TERRA – CRESCER E VIVER – O QUE MUDOU NA COMUNIDADE COM O SURGIMENTO DO CENTRO CULTURAL A HISTÓRIA QUE EU CONTO?

BINHO – Com apenas um ano de atuação mais de 400 pessoas entre crianças, adolescentes, jovens e adultos participaram das atividades no Centro Cultural A História Que Eu Conto que oferecia, com a contribuição de doação e mão de obra voluntária, as oficinas de Graffiti, Teatro e Reforço Escolar, além da Biblioteca Comunitária Quilombo dos Poetas e da Exposição sobre o Negro na Cultura Popular Brasileira, iniciativas existentes antes da instituição, realizadas por seus fundadores. Cada um fazia e continua fazendo até os dias atuais muito mais do que apenas sua parte, pois foi percebido que não bastava cada um fazer a sua, isto seria insuficiente. À medida que chegava um novo voluntário, novos sonhos, novas ideias eram acrescentadas àquele ideal, muitos parceiros, pessoas físicas e jurídicas, ajudaram a ecoar as vozes daquela História que estava sendo contada na prática.

Uma iniciativa predominante para dar visibilidade dentro e fora do Complexo de Vila Aliança e Senador Camará foi a Rede Comunitária, fomentada por Luiz Fernando Sarmento e Gilberto Fugimoto, do SESC RIO, entre os benefícios foi a possibilidade de oferecer aulas de Educador Social com Michel Robin e conhecer inúmeras pessoas e instituições, entre as quais o UNICEF, participando atualmente da Plataforma dos Centros Urbanos.

Uma parceria proveniente destes parceiros foi a do Cunca Bocaiúva, onde possibilitou a participação no Projeto Acesso à Justiça e à Cultura de Direitos, do Núcleo de Direitos Humanos da FASE. Outras parcerias a ressaltar são: a Associação Pro Melhoramentos de Vila Aliança, da Associação Comercial e Empresarial de Bangu, do Instituto TerrAzul e do CIESPI, BEG TV, Colégio e Curso ASA e Colégio Oliveira Galeno, ambos acreditaram na proposta do Centro Cultural desde o começo.

Através de editais públicos o Centro Cultural A História Que Eu Conto pode captar seus primeiros recursos para estruturar oficinas que desdobrariam na criação de uma Estamparia, Confecção e Ilha de Edição. Patrocínios da Casa da Moeda do Brasil para Graffiti e Teatro (2008-2009); recursos da FASE para a realização do I Seminário de Desenvolvimento Local do Complexo de Vila Aliança e Senador Camará (2009); Cine Mais Cultura para o “Cine Visão Coletiva” (2009) e da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro junto ao Ministério da Cultura contemplando com o Ponto de Cultura “A História Que Eu Conto Com Arte”. Em 2010, novamente pela Casa da Moeda do Brasil os Projetos “Nossa História Tá na Moda” e “Visão Coletiva” possibilitaram a realização das oficinas de Estilo, Costura; Modelagem; Estamparia e o de Produção Áudiovisual.

Atualmente o Centro Cultural A História Que Eu Conto possui uma equipe formada por 18 voluntários que se dedicam íntegra e integralmente à missão de Trabalhar pelo Desenvolvimento do Complexo de Vila Aliança e Senador Camará, pela democratização do acesso ao conhecimento e à pluralidade cultural. No dia 12 de setembro de 2010, o Prefeito Eduardo Paes visitou o Centro Cultural A História Que Eu Conto para assinar a tão solicitada Cessão de Uso. Além de conhecer e gostar das iniciativas desenvolvidas pela instituição, o Prefeito anunciou a construção da Primeira NAVE do Conhecimento do seu governo, em parceria com o CCHC, uma vitória da sociedade civil organizada se tornando referência para demais projetos que precisam de espaços ou são realizados em espaços de ocupação e não têm informações para se legalizarem. Paralelamente uma outra conquista muito importante foi o Projeto Arquitetônico em parceria com Bel Lobo do Escritório de Arquitetura Be.Bo que será um Cartão Postal na Zona Oeste da Cidade.

FOLHA DA TERRA – CRESCER E VIVER – HOJE, QUAL O MAIOR DESAFIO DO CENTRO CULTURAL A HISTÓRIA QUE EU CONTO?

BINHO – O maior desafio para o Centro Cultural A História Que Eu Conto tem sido captar recursos para dar sustentabilidade a toda sua estrutura, pois os recursos captados em editais são pontuais às atividades inscritas, entretanto, há despesas decorrentes às demandas que hoje não são apenas dentro da comunidade. Os membros do CCHC são requisitados e convidados a participarem de Seminários e eventos realizados dentro e fora do Estado, porém, não há recursos para remunerá-lo nem para custear tais despesas. Em 2011 a meta é captar recursos para o nosso Projeto de Sustentabilidade Institucional, uma vez consolidados não há o que provar mais nada para ninguém a respeito de gestão e credibilidade, haja vista as realizações e parcerias conquistadas.

FOLHA DA TERRA – CRESCER E VIVER – O QUE REPRESENTA PARA O CENTRO CULTURAL A HISTÓRIA QUE EU CONTO O FATO DE SER RECONHECIDO PELO PODER PÚBLICO COMO UM PONTO DE CULTURA?

BINHO – O Ponto de Cultura é um reconhecimento público importante, pois atende as iniciativas periféricas dos Estados brasileiros, quer seja de comunidades, quer seja de interior de cidades, comunidades tradicionais, etc. Para o CCHC, foi o primeiro olhar para o Complexo de Vila Aliança e Senador Camará que jamais tivera investimento em Cultura, para a Zona Oeste, uma bandeira hasteada chamando atenção para os projetos que precisam de reforço público por cumprir muitas das vezes um papel que é do Estado.

Nosso Ponto de Cultura A História Que Eu Conto Com Arte terá o desafio de dialogar as Artes Plásticas erudita e urbana, Pintura a óleo sobre tela e o grafite e contar em seus traços o ponto de vista do artista sobre a Vila Aliança, ou seja, o resultado desta obra de arte demonstrará como cada aluno das oficinas tem a percepção sobre o lugar onde vivem. O que dará mais visibilidade ainda por se tratar de um Ponto de Cultura e permitir acesso aos demais pontos e exposições em parceiras com o MinC e as Secretarias de Cultura do Estado e dos municípios de dentro e fora do Estado do RJ.

FOLHA DA TERRA – CRESCER E VIVER – A CULTURA ESTÁ EM PONTO? FALTA ALGUMA COISA? O QUÊ?

BINHO – É uma opinião subjetiva, pelas andanças culturais que faço vivencio a qualidade, o desafio e o querer fazer de muita gente e instituições, percebo o quanto a dificuldade de uns é tão simples para outros, mas a missão é uma só: tornar a sociedade melhor através da cultura. Chegamos ao Ponto de que não dá para investir somente nos grandes projetos com grande visibilidade, esta barreira vencida no Ministério de Gilberto Gil e Juca Ferreira tem o desafio de perpetuar e se fortalecer agora com a Ministra Ana de Holanda, não há como haver retrocesso. Prova disso são os Editais para Micro Projetos que a Secretaria de Estado de Cultura do RJ reproduziu o feito do PRONASCI, que era só para os Territórios de Paz e a SEC RJ fomentou para todo o Estado. A Casa da Moeda do Brasil que criou o edital Atitude Cidadã contemplando a Baixada Fluminense e a Zona Oeste, por serem as mais afetadas e menos contempladas no Editais Públicos. A FASE SAAP também contribui para novas e pequenas iniciativas, funciona com o “jardim de infância” dos Projetos, pois os primeiros passos, ou seja, os primeiros recursos contaram com esta instituição que faz isso há 50 anos. O que falta ainda é laço, isto é, parcerias efetivas, diálogos, assim as dificuldades seriam sanadas com mais facilidades, aumentando a eficácia da prática dos projetos em seus territórios. Falta mais suporte das Secretarias dos Municípios, sobretudo do interior, e fica a dica de um Escritório Itinerante de Apoio à Produção Cultural, tipo o da SEC RJ, acredito que os secretários de cultura deveriam se encontrar e se comprometerem mais com os projetos de seus municípios, tendo os seus Pontos de Cultura como Ponto de Partida para contribuírem neste diálogo.

FOLHA DA TERRA – CRESCER E VIVER – A SUA HISTÓRIA SE MISTURA COM A HISTÓRIA DO CENTRO CULTURAL? POR QUE?

BINHO – A História Que Eu Conto sobre mim, nasce em 1997 quando adolescente e estudante do antigo ginásio fui constrangido diante da turma pela professora de Língua Portuguesa pelo fato do meu pai não ter comprado o livro paradidático. Saí da escola e fiquei sem estudar durante um ano e seis meses. Prometi a mim mesmo que não deixaria meu irmão mais novo e ninguém mais na comunidade passar por isso, reuni uns livros e iniciei a criação da Biblioteca Quilombo dos Poetas, pois já escrevia poesias e crônicas e sabia a importância dos livros e da leitura para adquirir conhecimento. Desde criança, toda da vez que ia à casa de meu vizinho que tinha uma biblioteca particular, eu deixava de brincar só para admirar os livros, pois não podia mexer.

A minha Biblioteca era diferente, fiz na minha casa e ninguém que me visitava podia ir embora sem levar um livro. Hoje são mais de 6 mil livros, funciona desde 2008 no CCHC e por minhas mão passaram em 16 anos, mais de 100 mil livros. Estimulo sempre a criação de bibliotecas em outros projetos, criei o Chá com Letras, que é o encontro de Poetas, compositores, atores e amantes da Literatura, em parceria com Heloisa Buarque reuniremos textos destes encontros e publicaremos uma Antologia. Propus à Heloísa e à Vera Saboya, superintendente de Bibliotecas da SEC RJ a conceituação do termo “BiblioteComunitário”, reconhecendo as pessoas que atuam em bibliotecas comunitárias, aceito por elas, virará matéria na Universidade das Quebradas, coordenada pela Heloisa Buarque e terá como um dos professores o Bartolomeu Junior, diretor fundador do CCHC, responsável pela Biblioteca Quilombo dos Poetas no CCHC. Em março de 2011 fomos contemplados com o Prêmio Maiscultura de Pontos de Leitura do Município do Rio de Janeiro.

FOLHA DA TERRA – CRESCER E VIVER – DEPOIS DE VOCÊS, QUEM FICA PARA DAR CONTINUIDADE A HISTÓRIA?

BINHO – Desde o Planejamento do CCHC, os Três Loucos já previam que uma coisa seria certa, esta iniciativa era para beneficiar gerações. Para isso precisariam formar agentes multiplicadores que fossem tão loucos quanto, tornando o CCHC em um verdadeiro “Hospício Cultural”. A preocupação com o Desenvolvimento Humano, o sentimento de Pertencimento ao local, o amor e o Brilho nos olhos, são requisitos essenciais para fazer parte desta equipe.

Em 2010 foi criada a medalha Embaixador Cultural, homenageando e reconhecendo pessoas que nos apóiam desde o inicio, que têm a missão de não deixar o CCHC desviar de seu propósito. A equipe, munida de amor e potencialidade, aproveita as oportunidades adquirida através das parcerias para se qualificar mais, assim conseguimos bolsas integrais na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, na UniverCidade da Lagoa para o curso de Teatro, cursos diversos foram feitos no Crescer e Viver, SEBRAE, etc. Isto porque todos têm como missão formar multiplicadores, começando por aplicar e replicar os conhecimentos adquiridos. Assim, a História tende a se perpetuar…

Contato:

Centro Cultural A Hitória Que Eu Conto

Endereço: Rua Antenor Correia, nº 1 – Senador Camará – Rio de Janeiro (RJ)

Cep: 21.842-430

Telefone para Contato: (21) 7888-2429

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