Na Terra do Melhoral

O escritor campo-grandense Odir Ramos vai lançar no próximo dia 22, na Livraria Edital, em Campo Grande, a segunda edição do livro “Na Terra do Melhoral”. A obra fala de uma figura folclórica do bairro e mostra a sensibilidade do autor quando o tema é Campo Grande. Veja mais detalhes na crônica de Luiz André Mansur:

CRÔNICAS DA GENTE DO POVO

 

O dramaturgo Odir Ramos da Costa reúne neste livro saborosas crônicas sobre personagens e fatos reais, ou levemente inventados, da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, em especial de Campo Grande, bairro onde ele mora e onde fica o Teatro Artur Azevedo, do qual Odir foi diretor nos anos 70.

 

Naquela época Odir levava para Campo Grande artistas importantes da música brasileira que não tinham espaço nos teatros do centro da cidade e da zona sul devido à censura e às perseguições impostas pela ditadura. Numa das crônicas, “Trem para as estrelas”, o autor fala de um show no Artur Azevedo do Movimento Artístico Universitário, o MAU. 

 

Depois de 1h15 de atraso, quando o dinheiro dos ingressos já estava para ser devolvido, o grupo chegou, com os nervos à flor da pele, pois havia passado por várias barreiras policiais – o embaixador suíço havia sido sequestrado. Fizeram o show, aplaudidíssimo, e Odir conta que eles não quiseram voltar com o motorista da Kombi que os trouxera, pois o homem estava uma fera com tanta confusão. “E voltaram de trem para casa: Ivan Lins, Luís Gonzaga Junior, Aldir Blanc, Ruy Mauriti, a louríssima Lucinha Lins, todo o MAU”.

 

Da mesma safra é a crônica “O rei no ônibus”, que fala do show de outro músico em Campo Grande, no clube 29 de Junho, no final dos anos 50, onde se apresentou “um rapaz magrinho, de roupas modestas mas de corte avançado, manco de uma perna, de cara sofrida”. Como a bilheteria foi fraca, o pessoal teve que fazer uma “vaquinha” para que o futuro “rei” Roberto Carlos pudesse ir embora.

 

Odir reserva também espaço para outros personagens famosos, como o grande paisagista Roberto Burle Marx, que certa feita passou uma descompostura nos donos da Adidas em seu sítio na Ilha de Guaratiba; ou o Duo Assad, o melhor duo de violão clássico do mundo, formado pelos irmãos Sérgio e Odair Assad, moradores de Campo Grande durante muito tempo e que levaram um grande susto durante um voo de avião sobre o Oriente Médio, conforme conta Odir.

 

Com uma linguagem dosada entre o coloquial e o erudito, e com grandes pitadas de humor, Odir dá voz principalmente a personagens desconhecidos, os anônimos que ficam à margem da “história oficial” de um bairro, de uma cidade, ou mesmo de um país, mas estão no imaginário do povo, ganhando uma vida quase ficcional, aumentada pelas histórias que circulam de boca em boca, como é o caso do personagem que dá título ao livro, Melhoral, homem das ruas, becos e praças de Campo Grande, que “dá troco em esmola, não aceita dinheiro graúdo, vive do mínimo, aprimora a liturgia, surge e desaparece com a facilidade dos encantados, é pálido, descalço, corteja as moças e não gosta de política. Um santo”.

 

Quando a primeira edição deste livro foi lançada, em 1991, Melhoral ainda estava entre nós, com seu “coração suburbano. Dos melhores que por aqui pulsantes”. Ganhou vida eterna na memória dos moradores do bairro e também nesta obra de Odir Ramos da Costa, um escritor que não só neste como em seus outros livros e peças (muitas premiadas) segue a linhagem de mestres como Lima Barreto, Antônio Fraga e João Antônio, que entendiam a gente do povo e todas as suas possibilidades cômicas e dramáticas.

 

Sobre o autor:

 

O carioca Odir Ramos da Costa é autor de várias peças de teatro premiadas, como “Sonho de uma noite de velório”, “Palavras no chumbo derretido”, “No tempo do Corta-Jaca”, “Mate com leão e cicuta” e “É duro, irmão” (coautoria de Eduardo Borsato). Recebeu também Menção Honrosa da Rádio França Internacional, em 1996, relativa ao concurso Guimarães Rosa, para autores de língua portuguesa, premiação relativa ao conto “Buquê para faceira”, nome de outro livro que será relançado em breve pela Edital. Odir também é autor do romance “Manhas do Povo”, pela Ibis Libris, e nos anos 70 dirigiu o Teatro Artur Azevedo, no bairro carioca de Campo Grande, que tornou-se, durante sua direção, um ponto de resistência cultural aos artistas perseguidos pela ditadura.

{flike}

Comentários

comentários

Deixe um Comentário