Ma…Ma…Mãe…Pa…Pa…Pai

Quando o bebê balbucia as primeiras palavras, é uma festa em família. Mas o que fazer quando isso demora a acontecer ou quando a criança troca as letras, gagueja ou não consegue pronunciar algum som?

A fala, nosso principal meio de interagir com o mundo, deve ser cuidada desde cedo. "O sistema fonético e fonológico é adquirido gradativamente até mais ou menos os quatro anos de idade. Por isso, se a criança, a partir desta idade, não apresentar uma fala inteligível, apresentando omissões ou trocas de fonemas, um especialista deve ser consultado", explica a fonoaudióloga Viviane Fontes da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro.

A linguagem, expressão fundamental em nosso cotidiano, não está separada do contexto social. "Criança com atraso ou problemas de linguagem sente dificuldade na comunicação, percebe a irritação das pessoas ao redor, sofre a sensação de estar sendo inadequada e de não satisfazer a expectativa dos adultos", alerta Viviane, ou seja, esses distúrbios podem afetar até mesmo a socialização da criança.

Durante a fase escolar, dos sete anos em diante, as crianças desenvolvem seu senso crítico e se tornam mais analíticas e qualquer diferença no comportamento, no visual e, claro, na fala é motivo de gozação entre eles. "Distúrbios da fala podem gerar isolamento, baixa auto-estima e dificuldades de aprendizagem".

Como estimular a fala da criança – Confira as dicas dos especialistas:

  • Converse com ela, se interesse pelo assunto da conversa. Assista a filmes e desenhos animados junto com a criança e estimule-a a comentar a história como se fosse um resumo do que aconteceu.
  • Conte histórias, mas não leia tudo literalmente. Mude a entonação, faça perguntas e comentários durante a leitura.
  • Não repita palavras erradas para corrigi-la, nem ria da situação e muito menos aplique um sermão ou lição de moral. Apenas repita corretamente e lentamente, com maior entonação, a palavra errada e o jeito correto de pronunciá-la. A criança percebe o erro e qual a forma certa de se dizer.
  • Faça brincadeiras com a voz. Imitar os sons do telefone, do motor da moto, do cavalo, do avião é uma boa estratégia.
  • Estimule a criança a falar o nome dos objetos e não somente a apontá-los. Sempre que for passear com seu filho faça comentários sobre tudo que está ao seu redor, como por exemplo dar função as coisas, nomear cores, tamanhos, formas, comparações.
  • Brincar com seu filho também é fundamental. Com as brincadeiras a criança é estimulada a ter atenção, concentração e noções de regras, além de ser unir a família para um momento prazeroso e assim estimula a criança a conversar.

Isso tudo faz com que a criança comece a ter noções lingüísticas e cognitivas, estimulando o raciocínio e formando sua própria opinião.

O bê-á-bá do problema – De acordo com a fonoaudióloga, os distúrbios da fala podem ser divididos em transtornos fonológicos e fonéticos (confira os mais comuns no quadro abaixo). "O transtorno fonológico é a alteração de fala, com a produção inadequada dos sons e o uso errado das regras fonológicas da língua quanto à distribuição do som e da estrutura silábica. Sua causa é desconhecida, e o nível de gravidade é variado", explica Viviane. Já os transtornos fonéticos "são erros na articulação dos sons da fala, causados não por problemas neurológicos, mas pela presença de pequenos desvios anatômicos nos órgãos fonoarticulatórios (lábios, língua, dentes, palato) e que, em geral, são acompanhados por dificuldades de respiração, mastigação e deglutição.

Para que os pais possam identificar, o quanto antes, esses problemas, no entanto, é preciso antes entender como ocorre a evolução da fala, da linguagem e da comunicação na infância. Esse aprendizado natural costuma ocorrer por volta de um ano de idade. "Primeiro com palavras soltas, sempre com a ajuda do contexto, gestos e olhares. Com o tempo, sua linguagem será cada vez mais completa e a comunicação não-verbal, antes prioritária, passa a ser menos necessária", avisa a fonoaudióloga.

Ela também ensina, que basta ouvir a criança atentamente para perceber algo errado. A criança acima de 4 anos deve falar corretamente, ou seja, sem trocas, omissões, distorções, inversões. Observe atentamente se os sons estão distorcidos, quando a criança pronuncia o "s",ou seja se no momento em que ela fala há um escape de ar na lateral da boca. Observar também se os sons estão omitidos (ela diz "moeno" no lugar de "moreno"); se ela troca as letras ("moleno" no lugar de "moreno") ou as inverte ("crofe" no lugar de "cofre"); se há redução da estrutura da palavra: "taana" em vez de "taturana"; ou ainda se ocorrem contaminações, quando empregado um som para todas as consoantes da palavra, como "papapo" para "sapato", diz Viviane Fontes.

"O ideal é que, a qualquer suspeita de dificuldade, os pais levem seus filhos para uma consulta e avaliação com o fonoaudiólogo, pois quanto mais rápido o problema for identificado, o tratamento é mais rápido", alerta.

Sete razões que atrasam ou dificultam a fala

1 – Defeitos anatômicos (má for mação congênita de um ou vá rios órgãos e estruturas envolvidos no processo da fala, como fissuras nos lábios ou palato, o crescimento atípico da mandíbula, a abertura insuficiente da boca).

2 – Dentes malposicionados. Segundo o odontopediatra Luiz Fernando Guimarães Motta, nas situações em que a criança fecha a boca e os dentes superiores e inferiores não se encaixam de maneira harmoniosa e fisiológica, por exemplo, pode haver a presença de espaço entre as arcadas e a interferência na fala. "O posicionamento correto dos dentes contribui para a perfeita emissão dos sons", explica o dentista.

3 – Língua presa, quando o freio lingual (aquela pele embaixo da língua) é mais curto do que o normal. Isso impede a articulação da língua e a pronúncia de certos sons, como por exemplo o som do “r” de morango.

4 – Maus hábitos orais e posturais. Usar chupetas e chupar o dedo, por exemplo, podem deixar os dentes malposicionados, interferindo na força muscular da boca e nos movimentos da fala.

5 – Doenças respiratórias que afetam as vias aéreas superiores, o que acaba alterando a qualidade da voz: ela fica muito nasal ou sem nasalização suficiente.

6 – Deficiências auditivas, que devem ser diagnosticadas desde o nascimento, com a realização do Registro das Emissões Otoacústicas (EOAs), o "Teste da Orelhinha". É o método mais eficaz em recém-nascidos e deve ser feito até os três meses de idade. É um teste que permite realizar o diagnóstico da surdez precocemente e assim intervir o mais breve possível para que a criança não tenha problemas no desenvolvimento da fala e da linguagem, já que 50% a 75% das deficiências auditivas são passíveis de serem diagnosticadas no berçário.

7 – Inadequações na esfera emocional da criança, como o desejo de manter uma voz com características mais infantis, falando igual bebê.

Consultora: Viviane Fontes, fonoaudióloga da Secretaria Municipal de saúde do Rio de Janeiro, Especialista em Audiologia Clínica e professora de pós Graduação.