Disparos que mataram Matemático teriam atingido mecânico

A noite de 11 de maio era só mais uma como todas as outras para o lanterneiro Adeilson Moreira de Souza, de 35 anos. Ele havia saído do trabalho por volta das 18h, foi encontrar os amigos num bar em Cascadura e, às 22h, decidiu pegar o trem para casa, em Senador Camará. Próximo à estação, montou em sua moto, estacionada no local, e seguiu pela Rua Coronel Tamarindo, próxima à favela da Coreia. Por volta das 23h, quando passava pela esquina da Rua Olga, dois tiros vindos do alto acertaram sua moto: um atingiu o pneu dianteiro, e estilhaços do segundo ficaram alojados em sua perna esquerda.

Como ouvia música alta com fones de ouvido, o lanterneiro não conseguiu ouvir o barulho dos tiros disparados pelo helicóptero da Polícia Civil nem o carro que passou em alta velocidade bem a seu lado, segundos antes do disparo atingí-lo. Dentro do veículo estava o traficante Márcio José Sabino Pereira, o Matemático, que seria morto pelos agentes do helicóptero alguns minutos mais tarde.

Adeilson aparece nas imagens filmadas por câmeras de visão noturna durante a operação. Após o carro em perseguição passar por ele, a moto para e tomba. Duas horas depois, já resgatado por vizinhos e levado ao Hospital Estadual Albert Schweitzer, em Realengo, por parentes, o lanterneiro passou por uma cirurgia para tirar os estilhaços. Até hoje, ele exibe as marcas na perma.

Mais de um ano depois da ação, Adeilson entrou com uma ação de reparação contra o Estado, que tramita na 15ª Vara de Fazenda Pública. Em petição já enviada à Justiça, o Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública do estado, que representa o lanterneiro, condena a operação. “Diante de todo o arsenal utilizado e de seu uso sem limites, qual foi a preocupação que estes policiais tiveram com a vida do trabalhador que desejava voltar para casa depois de um dia de trabalho?”, questiona a defensora Isabella Borba, que assina o documento.

‘Muito mais gente deve ter sido atingida’

Depoimento de Adeilson de souza, lanterneiro baleado durante caça a Matemático

“Por conta dos estilhaços na perna, não pude trabalhar por sete meses. O tiro atrapalhou muito a minha vida, mas, por medo, preferi abafar o caso. Tanto que não fui eu que procurei a Justiça. Foi o Ministério Público Federal que, ao procurar registros de baleados nos hospitais no dia da operação, me encontrou e chamou para prestar depoimento. Quando contei minha história, eles me encaminharam para a defensoria. Foram muitos tiros, por pouco não aconteceu o pior. Muita gente deve ter sido atingido e deve ter abafado o caso, como eu fiz.”

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